Choose a language / Escolha um idioma / Scoli un língua
Em setembro de 2026, um curso sobre genética de conservação aplicada terá lugar em Bissau, Guiné-Bissau. O objetivo é ensinar as tecnologias moleculares mais recentes a pessoas que já trabalham ou que irão trabalhar no futuro com a incrível, mas também ameaçada, biodiversidade do seu próprio país. A seguinte publicação no blogue foi escrita por Maria Joana Ferreira da Silva, uma das professoras do curso!

África alberga uma das mais extraordinárias biodiversidades do planeta. Apesar de ocupar apenas cerca de 20% da superfície terrestre mundial, o continente reúne uma riqueza biológica ímpar (Fig. 1). Inserida neste património natural, a Guiné-Bissau destaca-se como um dos principais hotspots de biodiversidade da África Ocidental, constituindo um importante refúgio para a vida selvagem e para ecossistemas de elevado valor ecológico.
A nível do planeta e apesar dos importantes progressos alcançados na conservação da natureza nas últimas décadas, a perda e fragmentação de habitats, as alterações climáticas e a caça insustentável, continuam a representar desafios significativos para a biodiversidade. Para responder a estes desafios, a conservação da biodiversidade beneficia cada vez mais da integração entre o conhecimento científico, a experiência dos profissionais que trabalham no terreno e o conhecimento das comunidades locais. Entre as ferramentas mais promissoras destaca-se a genética da conservação, uma disciplina que aplica os conhecimentos da genética à proteção das espécies e dos ecossistemas. O seu principal objetivo é compreender como a diversidade genética existente nas populações selvagens influência a sua capacidade para se adaptar às alterações ambientais e persistir ao longo do tempo.
Figura 1. Algumas impressões da biodiversidade na Guiné-Bissau. A extraordinária biodiversidade de África em números: O continente alberga um enorme número de espécies incluindo aproximadamente 70,000 espécies de plantas, o equivalente a cerca de um sexto de todas as espécies vegetais conhecidas no mundo, cerca de 1,100 espécies de mamíferos (17% dos mamíferos do planeta), 2,500 espécies de aves, 950 anfíbios, 2,000 répteis e aproximadamente 5,000 espécies de peixes de água doce, refletindo o seu papel fundamental na conservação da biodiversidade global. Informação recolhida do artigo científico publicado por Bezeng B.S. e co-autores em 2025 intitulado An African perspective to biodiversity conservation in the twenty-first century. Phil. Trans. R. Soc. B 380: 20230443. https://doi.org/10.1098/rstb.2023.0443 e adaptada para este artigo de jornal
A diversidade genética corresponde às diferenças naturais existentes no ADN entre indivíduos da mesma espécie. Tal como não existem duas pessoas exatamente iguais, também os animais e as plantas apresentam pequenas diferenças no seu ADN que podem determinar ou influenciar as suas características como a resistência a doenças, a adaptação a diferentes condições ambientais ou o sucesso reprodutivo. Quanto maior for a diversidade genética numa população, maior tende a ser a capacidade das populações de responderem aos desafios colocados pelas alterações climáticas, pela degradação dos habitats ou pelo aparecimento de novas doenças. Pelo contrário, quando as populações se tornam pequenas e isoladas, a diversidade genética pode diminuir, aumentando a sua vulnerabilidade e o risco de extinção.
Figura 2. A natureza sob pressão na Guiné-Bissau.
A genética da conservação utiliza esta informação para apoiar decisões de gestão da biodiversidade. Através da análise do ADN, é possível avaliar os níveis de diversidade genética das populações, identificar espécies e populações particularmente vulneráveis, compreender e mapear os movimentos dos indivíduos para outras populações, apoiar programas de translocação e repovoamento de animais e plantas e monitorizar o tamanho efectivo das populações em espécies ameaçadas. Desta forma, a informação genética fornece informação científica complementar a outros tipos de informação, que pode contribuir para o planeamento, monitorização e gestão da biodiversidade.
Importa salientar que a genética da conservação não substitui a experiência dos gestores das áreas protegidas, dos guardas-florestais, dos técnicos de conservação nem o conhecimento científico ecológico acumulado ao longo de décadas de trabalho no terreno ou ainda, o conhecimento ecológico e cultural das comunidades. Pelo contrário, constitui uma ferramenta complementar que ajuda a responder a questões que não podem ser observadas diretamente. Os melhores resultados são alcançados quando a informação genética é interpretada em conjunto com o conhecimento dos técnicos, investigadores e comunidades locais, contribuindo para fortalecer o planeamento e a gestão da biodiversidade.
Nos últimos anos, uma inovação tecnológica veio tornar estas ferramentas muito mais acessíveis: os equipamentos laboratoriais portáteis de análises genéticas. Compactos e facilmente transportáveis, estes equipamentos permitem realizar técnicas modernas de genética em diferentes contextos, complementando as infraestruturas laboratoriais existentes e ampliando a capacidade de instituições, investigadores e técnicos de realizarem análises genéticas em locais onde o acesso a grandes laboratórios pode ser mais difícil. Estas tecnologias permitem acelerar a produção de conhecimento da diversidade genética das populações e complementar a formação contínua de estudantes, investigadores e técnicos dedicados à conservação da natureza.
É precisamente neste contexto que será organizado, em Bissau, o Curso Gratuito de Biologia Molecular Portátil, que decorrerá entre 21 e 28 de Setembro de 2026.
Durante uma semana, estudantes universitários, docentes, técnicos de instituições públicas e organizações de conservação terão oportunidade de receber formação prática em genética da conservação, na identificação de espécies através de ADN e na utilização de equipamentos laboratoriais portáteis aplicados à monitorização da biodiversidade. O curso será ministrado em português por investigadores associados às Universidades de Cardiff (Reino Unido) e Oulu (Finlândia) e que colaboram com instituições nacionais, como o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP) e o Instituto Nacional de Investigação das Pescas e Oceanografia (INIPO), promovendo a troca de experiências, a colaboração científica e contribuindo para ampliar as oportunidades de formação avançada em genética da conservação na Guiné-Bissau.
As candidaturas encontram-se abertas até 20 de agosto. Mais informações podem ser consultadas aqui.
A iniciativa pretende complementar os esforços já desenvolvidos pelas instituições nacionais na formação de profissionais dedicados à conservação da biodiversidade.
Figura 3. Maria em iniciativas anteriores de educação sobre a biodiversidade na Guiné-Bissau. Estas fotografias foram tiradas durante o curso de Genética de Conservação de Primatas no Parque Nacional de Dulombi, em 2016.

























Leave a comment